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(De) Propósito

Quero me esvaziar daquilo que me faz medíocre, daquilo que me transforma em morno – nem quente, nem frio. Quero ficar livre daquilo que me faz rotina; que evapora facilmente e vai embora sem deixar aviso, lembrança ou cicatriz.

Não quero ser médio, estatística, normal, banal, literal. Preciso sair: mesmo que isso signifique crescer demais dentro de um corpo que não comporta.

Quero a formalidade da arte, a beleza da contradição; a careta no rosto, a risada em dia quente… Quero poder ser aquilo que fui criada para ser: viva.

– Laylla Melgaço

(Foto de Eduardo Gontijo)

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A vida a partir dos olhos de uma rosa

Hoje pude me estudar um pouco. Observar, comparar, concluir e esses verbos invasivos da ciência. Ah, mas os dados não são assim tão objetivos quando se trata da gente, muito pelo contrário. É difícil não se envolver, ser impessoal, quando o sujeito de seu estudo é sua própria alma – ali, pronta pra ser dissecada. O objeto de meu estudo? É aqui que está a curiosidade de tudo, o novo, a descoberta, a motivação pra me descobrir do edredon em dia de chuva e escrever. Sentimento: eis aqui seu objeto, caro cientista. Muito prazer, ou não. Quem nos dera fossem todos eles prazer, não é?

Sem mais delongas, a questão é que reexperimentar sensações antigas me deu pistas para analisar sentimentos atuais. Assistindo a um triste filme repetido – de minha época de criança inocente que brincava de apertar campainha e sair correndo – percebi que, a angústia de ver o belo mocinho morrer e abandonar a mocinha sozinha no mundo, é a mesma que toma conta de mim quando me deparo com as grandes questões da vida, agora que também sou moça grande no mundo. Moça grande que se sente ameaçada pela solidão, a solidão de ser humano. Afinal de contas, não estamos todos sozinhos? Sozinhos, tentando se virar por conta própria, garantindo a sobrevivência da espécie… Ah, vamos cortar o papo científico. Essa coisa de laboratório nunca foi minha praia, assim como a praia nunca foi meu lugar preferido pra lazer.

Quando a bela moça de cabelos luzentes e longo vestido se encontra envolta no oceano, solitária em meio a tanta gente sem vida e inútil, e até mesmo a mão de seu amado não significa mais companhia… é aí que a sensação vem. É o abandono de ter pessoas em volta, mas ainda assim se sentir desprotegida, com frio, cheia de incertezas sobre o que virá. A menina que foi mimada e que não sabe sobreviver sozinha. Arriscar? Não, não pense assim… Ela arriscou-se muitas vezes sim. Ultimamente tem se arriscado muito, afinal de contas, aquele que não arrisca não petisca e coisa e tal. Porém, e depois? O que fazer em um planeta tão grande e tão frio quanto o Atlântico Norte? O que fazer quando aquele que era sua companhia certa para um longo futuro, de repente, nem te responde mais. Josephine… ele não pode mais cantar com você. A partir de agora é você: sozinha.

E então, como resposta a uma promessa que você fez ao nascer, você tenta mesmo assim. E a sensação retorna aqui. Qual o sentido de viver em um mundo não habitado por ele? A beleza, o mágico, o colorido era coexistir. Respirar seu ar usado, onda de gás carbônico. Crescer, trabalhar, estudar, ter filhos. Isso tudo parece bobo agora. A felicidade nunca mais será tão doce. Vai ter gosto de mel comprado em mercearia ruim, sem qualidade.

Entretanto, prometemos lutar. Never let go, Jack. Vamos lá, pois, às vezes, nossa zona de conforto é o local de nossa morte. A moça larga a mão do rapaz, decide seguir sozinha e enfrentar a tristeza de não ter o colo dele mais. Colo. Colo. Colo. Palavra confortável que dá vontade de dormir só de ler.

Suspiro. Como um texto que era ciência se transformou em sentimento? E porque não? Porque esses dois não podem participar da mesma realidade? Quer dizer, não é como se eu quisesse forçar dois corpos a ocuparem um mesmo lugar, não é verdade? Analisar-se a si mesmo é isso: fazer força, ter trabalho, assustar-se com as descobertas, chorar ao se deparar com elas. Sim, é.

Por último, você pode me perguntar a prescrição para isso. Ah, querido. Se eu soubesse, a estaria tomando nesse momento. Só sei que escrever me sacode. A música é meu bote de resgate. Os amigos são meus coletes salva-vidas. E a poesia, o calor que me lembra que as coisas um dia podem ser belas novamente. Agora, por favor, me dê licença. Preciso largar essa ciência literária e remar um pouco nesse grande oceano em que me encontro. Minha rotina é agitada. Já não brinco mais de apertar campainha, pois não teria tempo para sair correndo. O tique taque do relógio me lembra de minhas obrigações e de que, óbvia e assustadoramente, meus minutos estão se passando. Deito-me no barco, esperando que me levem até a civilização, que me iluminem, me aqueçam e me distraiam da dor constante que agora habita em mim: a dor de quem abandonou sua alegria no mar. Analise isso. É assim que uma rosa enxerga. Never let go, Jack.

– Laylla Melgaço

Fairy Boots, A História ~*

Olá, queridos leitores! Já andaram me perguntando várias vezes o porquê do nome do blog.

Bom, tenho dois motivos. O primeiro é um motivo bobo que possui um significado pessoal para mim. But, vou deixar pra lá…

O segundo motivo é: Eu estava (estou, só que dei uma parada) escrevendo uma história com esse título… Peguei muito carinho pelo enredo e personagem principal e tal… Então, quando vim fazer o blog, não consegui achar nome mais perfeito que esse.

Agora, como sou extremamente bondosa (e a toa), decidi colocar aqui o primeiro capítulo do “livro”. Por favor, dêem uma lida e depois me contem se gostaram… ok? :]

Vaaamos lá:

Fairy Boots – Capítulo 1


– Gostei das suas botas. – falou a senhorinha de cabelos azuis para mim. Ela deu uma risadinha baixa e completou: – Ah, que esquecida eu sou! Meu nome é Elsie.

Eu olhei para ela, tipo “e daí?”, mas resolvi usar a educação que mamãe me deu no berço e falei meu nome também. Ah, eu sei que mamãe também ensinou que não devo falar com estranhos, mas o que aquela mulher pequenina podia fazer comigo? Droga, minha tia Berta – que é completamente neurótica com tudo que se movimenta no planeta Terra – diria que há a possibilidade da baixinha azul fazer parte de uma gangue de seqüestradores de garotinhas exóticas, como eu. Sim, sou aquilo que se pode chamar de exótica. Vou explicar… meus cabelos são longos, ondulados e extremamente loiros, platinados como dizem os estilistas e fashionistas hoje em dia. Eu uso bastante roupa escura com muita renda e tecidos diferentes. Adoro uma sombra preta e, às vezes, até um batom vermelho. Mas NÃO, NÃO SOU EMO. Acho importante deixar isso bem claro. Esse negócio de chorar pelos cantos, falar fofuxês e pensar sobre a morte não é comigo não. Odeio quando me confundem com uma emo. Eu sou… bom, sou estilosa. Desculpe se te incomodo por isso.

– Ah, valeu. Eu sou Hayley. – disse e coloquei meus fones de ouvido novamente. Mas Elsie pareceu não desconfiar. Olha, quando uma pessoa coloca os fones de ouvido é porque ela não ta muito a fim de papear com você. Ou porque ela não tem tato social. Bom, no meu caso é a opção um, apesar de muitas vezes as pessoas pensarem que eu, de fato, não tenho tato social. Eu tenho, só não uso com seres humanos, que são chatos e me irritam. Eu gosto mesmo é do meu gato, Olive, só com ele vale a pena conversar de verdade. Quero dizer, valia a pena. Porque o Olive morreu há dois meses. O bichinho era mais velho que andar pra frente, tadinho…

– Oh, percebi que seu machucado na perna está melhor, florzinha. Está usando a arnica montana como te falei? – falou, chegando bem perto do meu joelho ralado, fazendo-me olhar para ela como se estivesse usando uma fantasia de elefante bem ali no ponto de ônibus onde nós estávamos.

Vou explicar para você, caro leitor. O que rola é o seguinte: todos os dias, depois que eu saio da escola, eu espero minha vizinha me buscar de carro no ponto de ônibus que fica na esquina do West High, a escola onde eu estudo. Minha mãe anda poupando dinheiro e a Judith, a vizinha citada acima, busca os filhos gêmeos de 8 anos no caratê e aproveita e me dá carona. É um saco esperar por ela, principalmente quando vem alguém querendo me fazer companhia. Tipo a senhorinha azul. Há três dias ela aparece sempre no mesmo horário que eu e fica fazendo perguntinhas e/ou comentários de todos os tipos enquanto eu luto para continuar escutando minha música sem ser perturbada. Mas a velha simplesmente não desiste! Dois dias atrás ela me perguntou assustada:

– Oh santo céus! O que aconteceu com seu joelho, florzinha? – e eu expliquei para ela que caí na escada do colégio e tal. Um mico, eu sei. Principalmente por que a Kate Bloom viu tudo e ela é um saco com aquela carinha angelical de líder de torcida e mente de capetinha. É isso que ela é. Um capetinha de saias que mal sabe soletrar m-a-m-ã-e. E, como eu sou muito sortuda e extremamente descoordenada, tropecei e saí quicando escada afora bem na frente da Kate Vaca Bloom. Ela ficou lá, rindo de mim, até que eu tomei um milk shake de morango da mão de uma de suas amiguinhas baba-ovo e derramei tudinho na roupa dourada de líder-de-torcida da qual ela tem tanto orgulho. He he.

– Sabe o que é bom para isso, querida? Arnica montana! – disse a azulzinha depois que eu contei que caí e ralei o joelho, sem os detalhes extras que contei para você, claro. Sorri para a esquisita e agradeci, mas é óbvio que eu não ia colocar uma planta idiota em cima do meu joelho. Passei na farmácia e comprei um daqueles remédios líquidos que ardem pra caramba, mas saram rapidinho o machucado. E agora aqui estava ela, achando que fora obra da santa arnica montana. Amém.

– Ah, na verdade, eu usei um outro remédio. – eu disse, Elsie fez uma careta.

Arnica montana ia sarar muito mais rápido. – falou. Tanto faz, velha chata.

– Ah. – respondi e recoloquei meus fones de ouvido.

– Ei, sua carona chegou. – disse ela me cutucando. Levantei os olhos e avistei o carro de Judith. Os gêmeos, como sempre, fazendo a baderna no banco de trás. Coloquei a mochila nos ombros e corri para o carro.

– Tchau tchau, florzinha. – pude escutar minha mais nova amiga (oba!) gritar para mim. Sentei no banco do passageiro e olhei para trás, mas Elsie já não estava mais lá.

Esquisito, né? Mas esquisito de verdade ficou depois que eu cheguei em casa. Sério, minha mãe me abraçou como se eu tivesse acabado de voltar da guerra.

– Oh, graças a Deus você ta bem, Hay!

– Claro que to, mãe! Por que não estaria? – ela me olhou com seus grandes olhos azuis contornados metodicamente pelo lápis de olho.

– Por nada, meu bem. Eu só… bom, eu… – ela tava mentindo, sempre gaguejava quando mentia – Eu tive um sonho ruim com você hoje. Só isso.

E mamãe continuou lá parada, olhando para mim e segurando meus ombros com as duas mãos.

– Mãe, você já viu que to inteira. Agora, será que eu posso ir pro meu quarto? – perguntei com o nariz franzido. Ela finalmente se deu conta de que tava me segurando e deu uma de suas risadinhas nervosas. Tudo bem que minha mãe é meio tan-tan, mas havia alguma coisa errada além dos parafusos soltos que ela tem por natureza. Eu comecei a subir as escadas para ir pro meu quarto, quando ela veio correndo até mim com um colar muito esquisito na mão.

– Hayley, só uma última coisinha… eu gostaria que você usasse esse colar, meu bem. Será que pode fazer isso por mim? – suspirei. Tipo, o colar era esquisito, tinha uma pedra preta mal polida pendurada. Como se eu já não usasse coisas esquisitas o suficiente. Mas como não tava a fim de discutir com mamãe, estendi a mão, peguei o colar e continuei subindo as escadas. Só que ela não se deu por satisfeita.

– Hay, coloca o colar! – olhei para ela.

– O que há, mãe? Você ta esquisita pra caramba!

– É um colar protetor, pelo sonho que eu tive. Você sabe como eu sou supersticiosa, não sabe? – ta, agora ela tava começando a me assustar. Que espécie de sonho tinha sido esse? Pior, não havia sonho. Eu sabia que ela tava mentindo. Mas alguma outra coisa havia. Ah, disso eu tinha certeza.

_____**_____

Tradução Once Dead, Twice Shy [Comunidade]

Heeeello, ladies!

Bom, como vocês já devem saber, estou fazendo a tradução do livro ODTS, a continuação da crônica Madison Avery e a Morte. Mas como ando extremamente devagar, procurei e achei uma comunidade bacana no Orkut para quem quer acompanhar direitinho a história de Madison e Barnabas <3 .

Acho que a garota que tá traduzindo lá não terminou ainda não… mas ela tá beeeem mais adiantada que eu, então dêem uma conferida.   ;]

Para quem se interessar, acesse a comunidade Traduções de Livros clicando aqui. Ela é moderada, então é necessário que você peça pra entrar lá. Feito isso, você pode acessar o tópico com a tradução AQUI.

Espero que gostem. Aproveitem a leitura.

Ah, e se quiserem comentar, estarei aqui. Hihi ;D

Beijinhos e Barnabas*

Parte 4 – Tradução ODTS

– Madison, eu não quero cometer outro erro. – ele disse me virando de frente para ele. – Nós vamos embora. Agora.

Eu olhei por trás dele, semicerrando os olhos com a luz intensa e o vento gelado. Arrepiei quando uma das aves negras pousou em uma viga – esperando. O grupo estava discutindo com o chefe da doca e, se nós fôssemos embora, algum deles ia morrer. Não, eu não ia embora. Tomei fôlego para convencer Barnabas que eu podia ajudá-lo, mas nessa hora escutamos uma voz vinda da cabana atrás de nós:

– Ei, vocês aí… Estão fazendo alguma coisa?

Barnabas deu um pulo e eu me virei, sorrindo e devolvendo a pergunta:

– O que é isso?

– Esquis. – respondeu o baixinho de cabelos escuros, segurando um par de esquis, propriamente ditos. – Nós não podemos pegar dois barcos se não tivermos oito pessoas. Vocês dois não querem vir com a gente, para observar?

– Claro. – respondi, fechando o acordo. Barnabas queria aquilo, eu também. Então nós íamos.

– Madison. – ele me segurou.

Todo mundo estava entusiasmado, pulando nos barcos e eu arrastei-o pra perto, encarando os rostos das pessoas.

– Em qual barco está a vítima? Eu entro no outro.

A mandíbula de Barnabas estava contraída.

– Não é fácil assim. Tem que ter astúcia, não tá escrito em algum lugar.

– Então dê um palpite. – eu pedi. – Pelas barbas do profeta, mesmo se nós estivermos em barcos diferentes, a gente vai tá tipo… a três metros de distância um do outro. Eu grito por você, ok?

Ele hesitou e eu podia acompanhar seus pensamentos brincando com a expressão dele. A idéia podia ser ruim, mas uma vida estava em jogo. Atrás de mim, uma das aves negras voltou a voar. Barnabas já ia me dizer alguma coisa, quando um cara vestindo uma sunga cinza veio até nós. Ele segurava um cabo e estava sorrindo. Estendeu a mão em um cumprimento e disse:

– Meu nome é Bill.

Eu parei na frente de Barnabas e apertei a mão do cara.

– Madison. – concluí que ele não era um reaper. Era muito normal para ser um.

Barnabas não disse seu nome e Bill olhou para ele dos pés a cabeça.

– Algum de vocês sabe como dirigir? – perguntou.

– Eu sei. – respondi, antes que Barnabas pensasse em uma desculpa para tirar a gente dali. – Mas eu nunca puxei esquis antes, então vou ficar só olhando.

Olhei de relance para Barnabas. A última frase tinha sido para ele.

– Ótimo. Quer vir no meu barco? Para me olhar? – Bill sorriu maliciosamente.

Ele estava flertando, e eu abri um grande sorriso. Andava misturada com Barnabas há tanto tempo, trabalhando na parada dos pensamentos, que tinha esquecido como divertido – e perfeitamente normal – era flertar com um cara. E ele estava jogando charme para mim, não pra garota lá na doca vestida com aquele biquíni amarelo só para mostrar a bunda, ou para a linda garota de cabelos longos e escuros que vestia shorts e um top da moda.

– É, eu vou te observar… – falei, dando um passo em direção ao cara, só para ser puxada por Barnabas, que agora segurava meu braço.

– Hey – ele falou em voz alta. Seus olhos tinham aquela cor prateada que me fazia arrepiar – Vamos colocar os garotos em um barco, e as meninas em outro.

– Legal – falou a garota de biquíni amarelo, toda animada olhando para Barnabas, mas sem parecer notar seus olhos prateados.  – Nós vamos no barco azul.

Eu me esquivei da mão dele, claramente percebendo que podia ver uma coisa que os vivos não podiam. Eu não sabia nem se Barnabas tinha consciência de que eu podia ver também. Em nossa volta, o barulho aumentou à medida que o pessoal conversava, os barcos eram ligados e o resto da turma tava em fila para embarcar. Puxei Barnabas para trás, para poder sussurrar:

– Bill não é o reaper, é?

– Não. – ele sussurrou de volta. – Mas tem alguma coisa em volta dele. Ele pode ser a vítima.

Assenti e Barnabas virou pra falar com um cara de blusa azul sobre possivelmente ficar atrás do volante do barco vermelho. Eu disse oi para as garotas e entrei no fundo do barco azul. Olhei para além da doca, na direção de Bill, me perguntando se eu conseguiria enxergar uma névoa negra por cima dele.

Pouco tempo depois, nós já estávamos correndo na água, naquele pequeno lago. A garota com uma roupa de surfar vermelha atrás do meu barco, e Bill atrás do outro barco. O movimento rítmico e o barulho das ondas eram familiares, como uma música legal. A luz do sol queimava meus ombros e o vento jogava meus cabelos nos olhos. Os pássaros negros tinham levantado vôo todos confusos lá na doca, mas os maiores estavam seguindo seu caminho bem atrás de nós. Minha inquietação começou a crescer quando eu desci meu olhar para os dois que esquiavam.

Bill realmente parecia saber o que tava fazendo, assim como a garota atrás do meu barco. Se os dois não eram reapers da Escuridão, e nem o cara de sunga cinza, então me restaram três opções. E duas delas estavam comigo. Eu resisti e tentei não apertar a pedra negra escondida atrás da minha blusa, torcendo para que Barnabas não tivesse me colocado no barco errado. A menina do biquíni tinha um colar.

– Você é boa esquiadora? – gritei para ela, esperando escutá-la conversando. Ela se virou e sorriu, segurando o longo cabelo loiro.

– Não sou ruim. – ela falou, tentando soar mais alto que o barulho do motor. – Acha que ela cai logo? To morrendo pra poder entrar na água.

Meu sorriso ficou meio congelado e eu torci para que ela não estivesse predizendo seu próprio futuro.

– Pode ser. A distância tá ficando maior.

– É, talvez então. – ela olhou para as pontas roxas do meu cabelo, e depois para os meus brincos de caveira.

– Eu sou Susan. Cabin Chippewa. – falou, sorrindo.

– Uh, Madison. – disse, segurando firme no barco com uma mão, quando comecei a sentir que meu equilívrio tava ruim. Ventava muito pra ficar de conversa, e enquanto Susan observava a menina esquiando, eu comecei a reparar na garota que dirigia o barco.

A garota pequena atrás do volante tinha uma cabeleira negra invejável, longa e bem cheia. O cabelo estava jogado para trás, mostrando as orelhas pequenas dela, maçãs do rosto expressivas e um semblante sereno enquanto ela olhava para frente. Ombros largos e um corpo esbelto faziam com que ela provavelmente fosse atraente para os rapazes. O top havaiano que ela vestia brilhava com o sol me fazendo desejar ter óculos escuros.

Depois disso, minha atenção percorreu a água até o outro barco onde Barnabas conversava com o cara da blusa azul.

Desabafo…

“- Oi, meu nome é Fabiana. Não, mentira. É Luciana. Ah, isso interessa mesmo? Quero dizer, o meu nome? Porque acho que não quero dizê-lo não. Ah, sim… tudo bem. Então vou começar a contar a minha história.

Bom, sabe aquele papo que o pessoal da psicologia tem sobre pai e mãe e tal? Pois então, eu acho que eles têm alguma razão nisso tudo. O problema que eu quero trazer hoje aqui para vocês só pode ter vindo dos meus pais. – Oi? – Ah, sim. Já vou dizer qual é o problema. Posso falar agora? Ah, claro que posso, eu já estou falando, não é mesmo? Hihi.

Vejam bem… O que acontece é o seguinte. Eu tenho sérios problemas com a estabilidade. Isso, eu sou uma pessoa muito instável. Sou péssima em tomar decisões… Nossa, odeio decidir se devo viajar ou não com as amigas. Ou se devo namorar ou não tal cara. Vocês precisam ver a dificuldade que foi escolher meu curso na faculdade. Hum… Eu desconfio da durabilidade das coisas e de sentimentos também, sabe como é? Tenho medo de gostar de alguém ou algo hoje, mas amanhã não gostar mais. Ah, e acredite em mim, isso já aconteceu. Péssimo. Bom, eu também procuro fazer planos constantemente em minha cabeça e morro de raiva quando alguém atrapalha esses planos. Eu me sinto desorganizada e atrapalhada. Ah, como eu odeio me sentir sem controle. Não gosto mesmo.

E sinto que isso veio dos meus pais. Por quê? Ah, bom… A princípio, nós nunca fomos de morar muito tempo em um só lugar. Não mesmo. Nós nos mudávamos quase sempre. Casa nova, cidade nova, bairro novo. Não interessa… o que interessa é que nunca permanecíamos muito tempo em um mesmo local. Sabe, eu acho isso um saco. Porque eu tinha que empacotar minhas roupas, meus livros, etc. e depois acabava me mudando novamente. Muito injusto, poxa. E meus amigos? Eu tive de trocar de amigos várias vezes… Vai ver é por isso que hoje não sou de correr atrás deles.

Nossa, mas de todos os meus problemas de infância, o que mais me irritava era não saber qual seria o humor dos meus pais pela manhã. Aqueles dois devem ser bipolares, só pode ser isso. Eu, hoje com quase trinta anos, continuo não entendendo a cabeça deles. Mas desisti de tentar também. Algo os fez assim. Quem sabe eles não tinham problemas com os pais também, não é? Haha. Irônico.

Uma coisa que não gosto de pensar é em como isso afeta a minha vida. Como isso pode afetar meu casamento, meu relacionamento com meus filhos… Droga, não sou casada e não tenho filhos. Mas eu pretendo um dia, gente. Já tenho um namorado até. Mas enfim, não quero que isso me afete. Quero ser uma pessoa mais decidida, menos insegura. Não quero ter a sensação de que meu namorado pode deixar de me amar amanhã mesmo. Não quero imaginar que sentimentos são efêmeros. O amor não pode ser efêmero. Deus não pode ser efêmero. E não é, disso eu tenho certeza. Dele eu tenho certeza.

Então, é isso. Queria compartilhar desses sentimentos com vocês. Dessa maneira, quero que vocês visualizem que todo ato do ser humano tem um motivo, talvez não uma justificativa, mas um motivo sim. As pessoas com as quais já briguei, os namorados com os quais já terminei, os amigos que já abandonei… me desculpem. Desculpem-me por ser insegura. Sei que pedir desculpa me faz vulnerável. Mas vou pedir assim mesmo. Já pedi, não é? Haha. Bom, é isso. Não tenho muito mais para falar hoje. Amanhã talvez eu tenha algo para contar. Afinal, quem pode responder pelo amanhã, certo? Ele é tão imprevisível. Amanhã talvez eu até diga meu nome…

Até alguma hora, pessoal. E obrigada pelas palmas.”

Texto escrito por Lay Melgaço

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“Seca-se a erva, e cai a flor, porém a palavra de nosso Deus subsiste eternamente.”

Isaías 40:8

Parte 3 – Tradução ODTS

Asas negras, pensei, sufocando um arrepio. Eles eram tipo corvos para os humanos vivos – quando os vivos os percebiam, pelo menos. Sua cobertura negra viscosa era praticamente invisível quando vista de lado a não ser pelo estranho brilho, uma linha cintilante. Esses seres varredores se alimentavam das almas que eram ceifadas pelos reapers da Escuridão e, se não fosse pela proteção do meu amuleto, eles já estariam em cima de mim. Os reapers da Luz permaneciam com uma alma ceifada até que ela pudesse ser escoltada para fora da Terra.

Olhei para Barnabas. Não precisava escutar seus pensamentos para saber que alguém daquele grupo estava marcado para morrer em um futuro bem próximo. Para descobrir quem era, teria de haver um mix entre uma descrição resumida do chefe de Barnabas e a capacidade que Barnabas tinha de ver a aura das pessoas. E sua intuição também.

– Você pode dizer quem é a vítima? – perguntei. Pelo que ele havia me dito, as auras tinham um brilho que indicava a idade da pessoa – essa havia sido a desculpa usada por Barnabas para justificar sua falha em me proteger. Era meu aniversário, e ele só trabalhava com pessoas de dezessete anos. Porém, eu tinha dezesseis anos até o momento em que o carro capotou e, oficialmente, dezessete no momento em que morri.

Barnabas estreitou os olhos, que ficaram prateados por um momento. Ele estava acessando algo divino. Isso me assustou pra caramba.

– Não sei dizer. Todos possuem dezessete anos, exceto a garota de maiô vermelho e o baixinho de cabelo escuro.

– E o reaper? – perguntei. Ninguém usava um amuleto, mas as pedras podiam se transformar para parecer qualquer coisa, então isso não significava muito. Era só mais um dom que eu não tinha.

Ele deu de ombros, ainda observando o grupo.

– O reaper pode nem estar aqui ainda. A aura dele ou dela aparentará dezessete anos, assim como a nossa. Eu não conheço todos os reapers da Escuridão de vista, e não vou saber com certeza até que ele ou ela puxe sua espada.

Puxe sua espada e enfie em uma pessoa. Trabalho concluído. Ótimo. Dependendo da hora em que você percebe a ameaça, pode ser tarde demais.

Eu observei as asas negras sobrevoarem o cais como gaivotas. Do meu lado, Barnabas estava inquieto.

– Você quer segui-los. – eu disse.

– Sim.

Era tarde demais para impedir alguém. A lembrança do meu coração parecia que estava ficando mais forte. Uma lembrança sombria e remanescente sobre estar viva que minha mente não podia deixar ir embora. E eu agarrei o braço de Barnabas.

– Vamos lá.

– Nós vamos embora. – ele protestou, seus pés se movendo. Eu observei seus tênis encontrarem a terra em perfeita sincronia com os meus enquanto nos dirigíamos para baixo.

– Eu vou ficar quieta, sentada. Qual é o problema? – perguntei.

Nossos passos provocavam um eco mudo na doca, quando ele me parou.

– Madison, eu não quero cometer outro erro. – ele disse me virando de frente para ele. – Nós vamos embora. Agora.

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OFF: Post suuuper pequeno.

Amanhã tento postar um gigante… =)