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A vida a partir dos olhos de uma rosa

Hoje pude me estudar um pouco. Observar, comparar, concluir e esses verbos invasivos da ciência. Ah, mas os dados não são assim tão objetivos quando se trata da gente, muito pelo contrário. É difícil não se envolver, ser impessoal, quando o sujeito de seu estudo é sua própria alma – ali, pronta pra ser dissecada. O objeto de meu estudo? É aqui que está a curiosidade de tudo, o novo, a descoberta, a motivação pra me descobrir do edredon em dia de chuva e escrever. Sentimento: eis aqui seu objeto, caro cientista. Muito prazer, ou não. Quem nos dera fossem todos eles prazer, não é?

Sem mais delongas, a questão é que reexperimentar sensações antigas me deu pistas para analisar sentimentos atuais. Assistindo a um triste filme repetido – de minha época de criança inocente que brincava de apertar campainha e sair correndo – percebi que, a angústia de ver o belo mocinho morrer e abandonar a mocinha sozinha no mundo, é a mesma que toma conta de mim quando me deparo com as grandes questões da vida, agora que também sou moça grande no mundo. Moça grande que se sente ameaçada pela solidão, a solidão de ser humano. Afinal de contas, não estamos todos sozinhos? Sozinhos, tentando se virar por conta própria, garantindo a sobrevivência da espécie… Ah, vamos cortar o papo científico. Essa coisa de laboratório nunca foi minha praia, assim como a praia nunca foi meu lugar preferido pra lazer.

Quando a bela moça de cabelos luzentes e longo vestido se encontra envolta no oceano, solitária em meio a tanta gente sem vida e inútil, e até mesmo a mão de seu amado não significa mais companhia… é aí que a sensação vem. É o abandono de ter pessoas em volta, mas ainda assim se sentir desprotegida, com frio, cheia de incertezas sobre o que virá. A menina que foi mimada e que não sabe sobreviver sozinha. Arriscar? Não, não pense assim… Ela arriscou-se muitas vezes sim. Ultimamente tem se arriscado muito, afinal de contas, aquele que não arrisca não petisca e coisa e tal. Porém, e depois? O que fazer em um planeta tão grande e tão frio quanto o Atlântico Norte? O que fazer quando aquele que era sua companhia certa para um longo futuro, de repente, nem te responde mais. Josephine… ele não pode mais cantar com você. A partir de agora é você: sozinha.

E então, como resposta a uma promessa que você fez ao nascer, você tenta mesmo assim. E a sensação retorna aqui. Qual o sentido de viver em um mundo não habitado por ele? A beleza, o mágico, o colorido era coexistir. Respirar seu ar usado, onda de gás carbônico. Crescer, trabalhar, estudar, ter filhos. Isso tudo parece bobo agora. A felicidade nunca mais será tão doce. Vai ter gosto de mel comprado em mercearia ruim, sem qualidade.

Entretanto, prometemos lutar. Never let go, Jack. Vamos lá, pois, às vezes, nossa zona de conforto é o local de nossa morte. A moça larga a mão do rapaz, decide seguir sozinha e enfrentar a tristeza de não ter o colo dele mais. Colo. Colo. Colo. Palavra confortável que dá vontade de dormir só de ler.

Suspiro. Como um texto que era ciência se transformou em sentimento? E porque não? Porque esses dois não podem participar da mesma realidade? Quer dizer, não é como se eu quisesse forçar dois corpos a ocuparem um mesmo lugar, não é verdade? Analisar-se a si mesmo é isso: fazer força, ter trabalho, assustar-se com as descobertas, chorar ao se deparar com elas. Sim, é.

Por último, você pode me perguntar a prescrição para isso. Ah, querido. Se eu soubesse, a estaria tomando nesse momento. Só sei que escrever me sacode. A música é meu bote de resgate. Os amigos são meus coletes salva-vidas. E a poesia, o calor que me lembra que as coisas um dia podem ser belas novamente. Agora, por favor, me dê licença. Preciso largar essa ciência literária e remar um pouco nesse grande oceano em que me encontro. Minha rotina é agitada. Já não brinco mais de apertar campainha, pois não teria tempo para sair correndo. O tique taque do relógio me lembra de minhas obrigações e de que, óbvia e assustadoramente, meus minutos estão se passando. Deito-me no barco, esperando que me levem até a civilização, que me iluminem, me aqueçam e me distraiam da dor constante que agora habita em mim: a dor de quem abandonou sua alegria no mar. Analise isso. É assim que uma rosa enxerga. Never let go, Jack.

– Laylla Melgaço

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